terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Episódio de hoje: "A vida não usa eufemismos"





Mês passado as rosas amanheceram murchas, assim como há duas semanas atrás, assim como ontem e provavelmente assim como amanhecerão na próxima semana. Realmente os dias já não são mais os mesmos.
Acordar (sozinho), fazer o café (sozinho), regar as rosas (sozinho), almoçar (sozinho), ler no sofá (sozinho), jantar (sozinho), dormir (sozinho): rotina!
Já até tentei outros hábitos, passei a beber chá de manhã, comprei margaridas, guardei Gonçalves Dias e passei a ler Fernando Pessoa. Mas, o chá não me caia muito bem, as margaridas me davam alergia, e os heterônimos me deixavam confuso. Voltei ao de sempre.
É claro, no fundo eu sempre soube que culpar a rotina era apenas uma desculpa pra mim mesmo. O problema maior era outro, OS OUTROS, os outros que não existem mais...
E ainda dizem por ai que o inferno são os outros... embusteiros!
Enfim, voltando a minha vidinha emocionante, fui ao médico esses dias, e para minha surpresa, estou ótimo! E então fiquei pensando e me questionando: “Quando essa saúde toda vai acabar?”. Pode parecer maluco, mas ficar doente e morrer é tudo que eu mais quero no momento. Só quem vive na escuridão sabe como são tristes e enfadonhos os dias.
Já tenho 82 anos, não há mais o que viver!
Meu filho morreu há uns 20 anos, acidente de carro, depois disso minha nora se mudou com meu neto para a Bahia e nunca mais os vi. Meus irmãos morreram todos, de velhice ou das doenças que a velhice causa. Meus amigos, a mesma coisa. E ela, a luz dos meus dias, meu sol e minhas estrelas, o grande amor da minha vida, minha esposa, se foi há 1 ano!
Era ela que me fazia viver de verdade, ela que me manteve sóbrio da vida, ela que me fazia ver cores em um mundo cheio de dor e sofrimento. Até que... acabou! Hoje tudo é preto e branco.
Não que eu não tenha amigos, eu tenho, claro. O senhor que me vende jornal, por exemplo, o vejo todos os dias, e sempre nos cumprimentamos com um saudoso “bom dia”! É bem verdade que não trocamos mais nenhuma palavra depois disso, mas somos todos muito ocupados, e essa vida é tão corrida que não sobra tempo para jogar conversa fora. Pelo menos é isso que eu finjo acreditar!
Meu outro amigo, esse mais recente, é um garoto de 9 anos que vive ao lado da minha casa. Pelo menos uma vez por semana, em seus jogos diários de futebol no quintal, ele deixa a bola cair na minha casa e corre pra buscar. No começo ele era tímido, mal abria a boca para pedir a bola, depois foi tendo mais confiança e hoje ele já se sente em casa.
Eu sempre o chamo pra entrar, tomar leite, comer alguma coisa, já até comprei balas e chocolates... Mas ele nunca aceita! Entra, pega a bola, agradece e se vai. Eu chamo nossa amizade de “express”.
Aconteceu que, em uma dessas visitas, meu amigo jogador me fez uma proposta inesperada: fui convidado para sua festa de aniversário! Confesso que na hora fiquei sem palavras, mas nesses momentos a amizade fala mais alto, e aceitei o pedido.
Hoje, às 20 horas, estarei vivo outra vez!
Presente comprado, banho tomado, terno posto, tudo pronto, e eram ainda 19 horas... O que fazer para o tempo passar?
Como estava entrando outra vez nesse mundo de mudanças, festas, e vida, resolvi ler algo moderno para me distrair. Procurei nos livros antigos, nada me chamou a atenção, então fui à estante dos livros novos, e um me chamou a atenção. Fiquei meio decepcionado por ser Fernando Pessoa, ele ainda não me passava confiança. Mas a atração que senti por aquele livro me fez abri-lo. Primeira página e encontrei. Nada mais apropriado que isso, “Aniversário”, de Álvaro de Campos. Comecei a ler:
“No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.”
Depois de ler os primeiros versos, senti a nostalgia me apunhalando o peito com uma forma arrebatadora, pensei em parar, jogar o livro fora, mas o poema tinha vida própria e me chamava pra dentro dele. Continuei:
“No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida”
E a cada verso lido, minha vida ia passando em minha cabeça como um filme de terror mal feito, cada verso era uma facada, minha alma sangrava. Até que chegaram os últimos versos:
“Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...”

Depois dessas palavras, tomei meus últimos 15 comprimidos de Rivotril e fui dormir. Espero que não sintam minha falta na festa.